Despertei um dia, via que chovia mas sentia que não podia.... nada podia, nada seria, apenas sonho viria
Mostrando postagens com marcador citações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador citações. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Aplastamiento de las gotas
Yo no sé, mirá, es terrible cómo llueve. Llueve todo el tiempo, afuera tupido y gris, aquí contra el balcón con goterones cuajados y duros, que hacen plaf y se aplastan como bofetadas uno detrás de otro qué hastío. Ahora aparece una gotita en lo alto del marco de la ventana, se queda temblequeando contra el cielo que la triza en mil brillos apagados, va creciendo y se tambalea, ya va a caer y no se cae, todavía no se cae.
Está prendida con todas las uñas, no quiere caerse y se la ve que se agarra con los dientes mientras le crece la barriga, ya es una gotaza que cuelga majestuosa y de pronto zup ahí va, plaf, deshecha, nada, una viscosidad en el mármol.
Pero las hay que se suicidan y se entregan en seguida, brotan en el marco y ahí mismo se tiran, me parece ver la vibración del salto, sus piernitas desprendiéndose y el grito que las emborracha en esa nada del caer y aniquilarse.
Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adiós gotas. Adiós.
*palabras de Julio Cortázar
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Despina: As cidades e o desejo

Há duas maneiras de se alcançar Despina: de navio ou de camelo. A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar.
O cameleiro que vê despontar no horizonte do planalto os pináculos dos arranha-céus, as antenas de radar, os sobressaltos das birutas brancas e vermelhas, a fumaça das chaminés, imagina um navio; sabe que é uma cidade, mas a imagina como uma embarcação que pode afastá-lo do deserto, um veleiro que esteja para zarpar, com o vento que enche as suas velas ainda não completamente soltas, ou um navio a vapor com a caldeira que vibra na carena de ferro, e imagina todos os portos, as mercadorias ultramarinas que os guindastes descarregam nos cais, as tabernas em que tripulações de diferentes bandeiras quebram garrafas na cabeça umas das outras, as janelas térreas iluminadas, cada uma com uma mulher que se penteia.
Na neblina costeira, o marinheiro distingue a forma da corcunda de um camelo, de uma sela bordada de franjas refulgentes entre duas corcundas malhadas que avançam balançando; sabe que é uma cidade, mas a imagina como um camelo de cuja albarda pendem odres e alforjes de fruta cristalizada, vinho de tâmaras, folhas de tabaco, e vê-se ao comando de uma longa caravana que o afasta do deserto do mar rumo a um oásis de água doce à sombra cerrada das palmeiras, rumo a palácios de espessas paredes caiadas, de pátios azulejados onde as bailarinas dançam descalças e movem os braços para dentro e para fora do véu.
Cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe; é assim que o cameleiro e o marinheiro vêem Despina, cidade de confim entre dois desertos.
*Do livro Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Charles Bukowski
Charles Bukowski, born in 1920, began writing at a young age and was first published in the 1940s. Then Bukowksi gave up writing for the world of work and bars, not publishing, not writing, so the myth goes, for nearly twenty years. Ten of those years were spent roaming from odd job to odd roominghouse from the East coast to the West. The other ten years, Bukowski worked for the United States Postal Service in Los Angeles, a job that took no effort except for the strength to show up and the patience to perform mindless operations. During that time, his life bordered on insanity and death, two prevalent themes in his writing. According to his own myth making, Bukowski returned to writing the day that he quit the Postal Service, but his bibliography shows that indeed, he had been publishing several years before that.
Freedom
he drank wine all night of the
28th, and he kept thinking of her:
the way she walked and talked and loved
the way she told him things that seemed true
but were not, and he knew the color of each
of her dresses
and her shoes-he knew the stock and curve of
each heel
as well as the leg shaped by it.
and she was out again and when he came home,and
she'd come back with that special stink again,
and she did
she came in at 3 a.m in the morning
filthy like a dung eating swine
and
he took out a butchers knife
and she screamed
backing into the rooming house wall
still pretty somehow
in spite of love's reek
and he finished the glass of wine.
that yellow dress
his favorite
and she screamed again.
and he took up the knife
and unhooked his belt
and tore away the cloth before her
and cut off his balls.
and carried them in his hands
like apricots
and flushed them down the
toilet bowl
and she kept screaming
as the room became red
GOD O GOD!
WHAT HAVE YOU DONE?
and he sat there holding 3 towels
between his legs
no caring now whether she left or
stayed
wore yellow or green or
anything at all.
and one hand holding and one hand
lifting he poured
another wine
sábado, 3 de setembro de 2011
Descontrários
Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
(de Paulo Leminski)
segunda-feira, 15 de março de 2010
Alice e a Duquesa no jogo de críquete da Rainha de Copas

“Você não pode imaginar como eu estou feliz em vê-la novamente, minha queridinha”, disse a Duquesa, tocando afetuosamente o braço de Alice, passando a caminhar junto com ela.
Alice ficou feliz por encontrá-la de bom humor, e pensou consigo mesma que talvez fosse a pimenta que a deixava tão selvagem como quando as duas se conheceram na cozinha.
“Quando eu for uma Duquesa”, ela disse para si mesma (não em um tom muito esperançoso), “não vou usar pimenta em minha cozinha de jeito nenhum. Sopa cai muito bem sem isso talvez seja a pimenta que deixe as pessoas mal-humoradas”, ela continuou, bem feliz de ter descoberto um novo tipo de regra, “e o vinagre as deixa azedas...e a camomila as deixa amargas...e...e as balas de cevada e este tipo de coisas é que deixam as crianças tão doces. Eu queria que as pessoas soubessem disso: então, eles não seriam tão sovinas com doces, sabe...”
Ela quase se esqueceu da Duquesa nessa hora e levou um pequeno susto quando ouviu sua voz perto dos ouvidos.
“Você está pensando em alguma coisa, minha querida, e isso faz você esquecer de falar. Eu não posso lhe dizer agora qual é a moral disso mas vou lembrar num instante.”
“Talvez não haja nenhuma”, Alice aventurou-se a observar.
“Ora, ora, criança!”, retrucou a Duquesa. “Tudo tem uma moral, se você encontrá-la.” E foi se apertando contra Alice enquanto falava.
Alice não gostou muito de estar tão perto dela, em primeiro lugar porque a Duquesa era muito feia, e em segundo lugar porque era do tamanho exato para apoiar o queixo sobre o ombro de Alice, e possuía um queixo muito pontudo. Entretanto, Alice não queria ser rude e por isso agüentou o quanto pôde.
“O jogo parece estar bem melhor agora”, disse para manter a conversa.
“Perfeito”, respondeu a Duquesa, “e a moral disso é...‘Oh!, é o amor, é o amor que faz o mundo girar!’”
“Alguém disse”, Alice murmurou, “que ele gira quando cada um cuida dos seus próprios negócios.”
“Ah! Bem! Isto quer dizer quase a mesma coisa”, disse a Duquesa enfiando o queixo pontudo nos ombros de Alice, completando, “e a moral disso é...‘Tome conta do sentido e os sons tomarão conta de si mesmos.”
“Como ela gosta de achar uma moral em tudo!”, Alice pensou consigo mesma.
“Aposto como você está pensando porque eu não coloco meu braço na sua cintura”, a Duquesa falou, depois de uma pausa. “A razão é: tenho dúvidas em relação ao humor do seu flamingo. Posso experimentar?”
“Ele pode bicar”, Alice cautelosamente replicou, não se sentindo nem um pouco a fim de que ela tentasse.
“Bem verdade”, disse a Duquesa, “flamingos e a mostarda bicam. E a moral disso é...‘Pássaros da mesma plumagem voam juntos’.”
“Só que a mostarda não é um pássaro”, Alice observou.
“Certo. Como sempre”, disse a Duquesa, “você tem uma maneira muito clara de colocar as coisas!”
“É um mineral, eu acho”, disse Alice.
“É claro que é”, disse a Duquesa, que parecia pronta para concordar com tudo que Alice dissesse. “Há uma grande máquina de mostarda perto daqui. E a moral disso é...‘Quanto mais tenho para mim, menos sobra para os outros’.”
“Ah!, já sei!”, exclamou Alice, que não tinha prestado atenção à última observação da Duquesa. “É um vegetal. Não parece com um mas é.”
“Eu concordo com você”, disse a Duquesa, “e a moral disso é...‘Seja o que você parece ser’...ou, se você prefere colocar isso de um jeito mais simples...‘Nunca se imagine diferente do que deveria parecer para os outros o que você fosse ou poderia ter sido não seja diferente do que você tendo sido poderia ter parecido para eles ser diferente’.”
“Eu acho que poderia entender melhor”, disse Alice polidamente, “se eu tivesse isso por escrito: não consigo seguir com você falando.”
“Isso não é nada em comparação com o que eu poderia dizer, se quisesse”, replicou a Duquesa num tom de prazer.
“Por favor, não se dê ao trabalho de dizer isso mais complicado que já disse”, falou Alice.
“Oh, não fale em dar trabalho”, disse a Duquesa. “Dou-lhe de presente tudo o que já falei até agora.”
“Um tipo de presente bem barato!”, pensou Alice. “Fico feliz que as pessoas não costumem dar presentes de aniversário como esses!”. Mas ela não se aventurou a dizer issso em voz alta.
*extraido de "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll
quinta-feira, 11 de março de 2010
Auto-experiência

4/19/43
16:20: 0,5 cc de 1/2 solução aquosa de promil tartarato de diethylamide oralmente =0,25 mg. de tartarato. Tomado diluído com aproximadamente 10 cc. de água. Insípido.
17:00: Começando uma vertigem, sentimento de ansiedade, de distorções visuais, sintomas deparalisia, desejo de rir.
Suplemento de 4/21: Fui para Casa através de bicicleta. Das 18:00 às 20:00 crise mais severa.
Aqui cessam as notas do meu diário de laboratório. Eu só pude escrever as últimas palavras com umgrande esforço. Agora já estava claro para mim que o LSD tinha sido a causa da notável experiência da sexta-feira prévia, pelas percepções alteradas que eram do mesmo tipo de antes só que com uma intensidade muito maior. Eu tive que lutar para falar de forma inteligível. Eu pedi para meu assistente de laboratório, que estava ciente da minha auto-experiência, que me acompanhasse até minha casa. Nós fomos de bicicleta, nenhum automóvel estava disponível por causa das restrições de seu uso durante a guerra. Uma vez em casa, minha condição começou a assumir formas ameaçadoras. Tudo em meu campo de visão oscilava e estava distorcido como se visto num espelho torto. Eu também tive a sensação de estar impossibilitado de sair do lugar. Não obstante, meu assistente me falou depois que nós tínhamos viajado muito rapidamente. Felizmente nós chegamos em casa são e salvos e eu fui capaz de pedir para meu companheiro chamar nosso médico de família e mesmo pedir leite aos vizinhos.
Apesar da minha condição delirante, confusa, eu tive breves períodos de pensamento claro e efetivo e escolhi leite como um antídoto não específico para o envenenamento. A vertigem e sensação de desmaio às vezes ficavam tão fortes que eu já não podia ficar em pé e tive que me deitar num sofá. Meus ambientes tinham se transformado agora de modo terrificante. Tudo no quarto estava girado ao meu redor e os objetos mais familiares, as peças de mobília assumiam formas grotescas, ameaçadoras. Elas estavam em contínuo movimento, animadas, como se dirigidas por uma inquietude interna. A vizinha, que eu reconheci parcamente, trouxe-me leite e, durante a noite, bebi mais de dois litros. Ela não era mais nenhuma Senhora R., mas sim uma bruxa malévola, insidiosa com uma máscara colorida.
Até pior que estas transformações endiabradas do mundo exterior, eram as alterações que eu percebia em mim, em meu próprio ser interno. Todo esforço na minha tentativa para pôr um fim na desintegração do mundo exterior e na dissolução de meu ego, parecia ser um esforço desperdiçado. Um demônio tinha me invadido, tinha tomado posse do meu corpo, mente, e alma. Saltei, gritei e tentei me livrar dele, entretanto afundei novamente e me deitei impotente no sofá. A substância, que eu tinha querido experimentar, tinha me derrotado. Era o demônio que desdenhosamente triunfava sobre minha vontade. Fui tomado pelo terrível medo de ter ficado louco. Eu fui levado para um outro mundo, um outro lugar, um outro tempo. Meu corpo parecia estar sem sensações, inanimado, estranho. Estaria eu morrendo? Esta era a transição? Às vezes eu acreditava que estava fora do meu corpo e então percebia claramente, como um observador externo, a completa tragédia da minha situação. Eu nem mesmo tinha tido a oportunidade de me despedir da minha família (minha esposa, com nossas três crianças, tinha viajado naquele dia para visitar seus pais, em Lucerne). Entenderiam eles que eu não tinha experimentado irrefletidamente, irresponsavelmente, mas com uma precaução bastante extrema e isto era um resultado totalmente imprevisível? Meu medo e desespero se intensificaram, não só porque uma família jovem poderia perder seu pai, mas também porque eu temia ter que deixar meu trabalhode pesquisa química inacabado no meio de um desenvolvimento frutífero, promissor. Outra reflexão que tomou forma foi uma idéia cheia de ironia amarga: se eu fosse forçado a deixar este mundo prematuramente, seria por causa deste ácido lisérgico diethylamide que eu mesmo tinha trazido ao mundo.
Antes que o doutor chegasse, o clímax da minha desesperada condição já tinha passado. Meu assistente de laboratório o informou sobre minha auto-experiência porque eu não era ainda capaz de formular uma frase coerente. Ele, perplexo, balançou sua cabeça depois de minhas tentativas para descrever o perigo mortal que ameaçava meu corpo. Ele não pôde descobrir nenhum sintoma anormal diferente das pupilas extremamente dilatadas. Pulso, pressão sanguínea e a respiração estavam totalmente normais. Ele não via nenhuma razão para prescrever qualquer medicamento. Ao invés disso ele me levou para minha cama e ficou me vigiando. Lentamente eu voltei de um mundo misterioso, pouco conhecido e reassumindo a realidade cotidiana. O horror suavizou-se e deu lugar a um sentimento de muita felicidade e gratidão, quanto mais normais as percepções e os pensamentos devolvidos, fiquei mais confiante de que o perigo da loucura tinha definitivamente passado. Agora, pouco a pouco, eu poderia começar a desfrutar as cores sem precedentes e os jogos de forma que persistiram por trás de meus olhos fechados. Imagens caleidoscópicas, fantásticas surgiram em mim, variando, alternando, abrindo e então se fechando em círculos e espirais, explodindo em fontes coloridas, reorganizando e se cruzando em fluxos constantes. Era particularmente notável como cada percepção acústica, como o som de uma maçaneta de porta ou de um automóvel passando, foi transformada em percepção óptica. Todo som gerava uma vívida imagem variável, com sua própria forma, consistência e cor.
Mais tarde, à noite, minha esposa voltou de Lucerne. Alguém a tinha informado, através de um telefonema, que eu estava sofrendo um desarranjo misterioso. Ela tinha voltado para casa imediatamente e tinha deixado para trás as crianças com os pais dela. Até então eu já tinha me recuperado suficientemente para lhe contar o que tinha me acontecido. Exausto, então eu dormi para despertar na próxima e fresca manhã com uma mente clara, embora ainda um pouco cansado fisicamente. Uma sensação de bem-estar e vida renovada fluía por mim. O café da manhã teve um gosto delicioso e me deu um extraordinário prazer. Quando depois eu fui ao jardim, no qual o sol brilhava depois de uma chuva da primavera, tudo brilhou e centelhou numa luz fresca. O mundo era como se tivesse sido recentemente criado. Todos meus juízos vibravam em uma condição mais alta de sensibilidade que persistiu durante o dia inteiro. Esta auto-experiência mostrou que o LSD-25 se comportara como uma substância de propriedades psicoativas extraordinárias e com muita potência. Não havia no meu conhecimento, nenhuma outra substância que provocasse tais efeitos psíquicos profundos em tais doses extremamente baixas e que causassem tais mudanças dramáticas na consciência humana e na nossa experiência do mundo interior e exterior.
O que parecia mais significante era que eu podia até mesmo lembrar-me da experiência de inebriação do LSD em todos os detalhes. Isto só poderia significar que a função gravadora da consciência não foi interrompida, até mesmo no clímax da experiência do LSD, apesar do desarranjo profundo da visão normal do mundo. Durante toda a experiência, eu tinha estado ciente, até mesmo atento, da participação em uma experiência, mas apesar deste reconhecimento da minha condição, não pude eu, com todo o esforço do meu querer, sacudir o mundo do LSD. Tudo foi experimentado como
completamente real, como uma realidade alarmante; alarmante porque o quadro da outra, a familiar realidade cotidiana, ainda tinha sido completamente preservada na memória para comparação. Outro aspecto surpreendente do LSD foi sua habilidade de produzir um estado de longo alcance, poderoso de inebriação, sem deixar uma ressaca. Totalmente ao contrário, no dia seguinte ao experimento do LSD eu mesmo me senti, como já descrevi, em excelente condição física e mental. Eu estava seguro que o LSD, uma combinação ativa nova com tais propriedades, teria que ter uso na farmacologia, na neurologia e especialmente na psiquiatria, e que atrairia o interesse dos especialistas envolvidos. Mas naquele momento eu não tive nenhuma percepção de que a nova substância também viria a ser usada, além da ciência médica, como um inebriante no cenário das drogas. Considerando que minha auto-experiência tinha revelado o LSD em seu terrificante e endiabrado aspecto, a última coisa que eu poderia ter esperado era que esta substância pudesse mesmo achar aplicação como qualquer coisa se aproximando de uma droga de prazer. Eu, além disso, não reconheci a conexão significante entre a inebriação do LSD e as experiências visionárias espontâneas, até muito mais recente, depois de experiências adicionais que foram levadas a cabo com doses muito mais baixas e debaixo de condições diferentes.
No próximo dia eu escrevi ao Professor Stoll o relato acima mencionado, informando sobre minha experiência extraordinária com o LSD-25 e enviei uma cópia ao diretor do departamento farmacológico, Professor Rothlin.
Como esperado, a primeira reação foi de uma incrédula surpresa. Imediatamente uma chamada telefônica veio da administração; o Professor Stoll perguntou: "Você está certo que não cometeu nenhum engano de julgamento? A dose declarada está realmente correta?" Professor Rothlin também me chamou e fez a mesma pergunta. Eu estava certo deste ponto, porque tinha executado o peso e a dosagem com minhas próprias mãos. Ainda que suas dúvidas fossem até certo ponto justificadas, até então nenhuma substância conhecida tinha exibido o efeito psíquico mais leve até mesmo em doses de fração de um miligrama. Uma combinação ativa de tal potência parecia quase incrível. O Professor Rothlin e dois de seus colegas foram os primeiros a repetir minha experiência, com só um terço da dose que eu tinha utilizado. Mas até mesmo naquele nível, os efeitos ainda foram extremamente impressionantes e bastante fantásticos. Todas as dúvidas sobre as declarações do meu relatório foram eliminadas.
*extraido de "LSD - Minha Criança Problema", de Albert Hofmann
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Cada um pertence a todos

Num pequeno espaço gramado entre altas moitas de urzes mediterrânea5- duas crianças, um garoto de cerca de sete anos e urna menina que poderia ter um ano a mais, dedicavam-se muito gravemente, com toda a atenção concentrada de sábios absortos em algum trabalho de descoberta, a urn jogo sexual rudimentar.
— Lembram-se todos — disse o Administrador, com sua voz forte e profunda —
lembram-se todos, suponho, daquelas belas e inspiradas palavras de Nosso Ford: "A História é uma farsa". A História — repetiu pausadamente — é uma farsa.
Mustafá Mond inclinou-se para a frente, brandiu diante deles seu dedo indicador:
— Procurem compreender — disse, e sua voz causou-lhes um frêmito estranho na região do diafragma. —Procurem compreender o que significava ter uma mãe vivípara.
Novamente aquela palavra obscena. Mas dessa vez, nenhum deles pensou em sorrir.
— Procurem imaginar o que significava "viver no seio da família".
Eles tentaram imaginar; mas, evidentemente, sem nenhum êxito.
— E sabem o que era um "lar"? Abanaram a cabeça.
O lar, a casa — algumas peças exíguas, onde se apinhavam, de maneira sufocante, um homem, uma mulher periodicamente prolífica, um bando de meninos e meninas de todas as idades. Falta de ar, falta de espaço; uma prisão insuficientemente esterilizada; a obscuridade, a doença, os cheiros.
(A evocação feita pelo Administrador era tão vivida, que um dos rapazes, mais sensível que os outros, só com a descrição empalideceu e esteve a ponto de vomitar.)
E o lar era tão sórdido psiquicamente quanto fisicamente. Do ponto de vista psíquico, era uma toca de coelhos, um monturo, aquecido pelos atritos da vida que nele se comprimia. Que intimidades sufocantes, que relacionamento perigoso, insensato, obsceno, entre os membros do grupo familiar! Insanamente, a mãe cuidava de seus filhos(seus filhos). . . cuidava deles como uma gata cuida de seus filhotes. . . mas como uma gata que falasse, uma gata que soubesse dizer e repetir uma e muitas vezes:
— Sim — disse Mustafá Mond, meneando a cabeça — é natural que os senhores
estremeçam.
Nosso Ford — ou nosso Freud, como, por alguma razão inescrutável, preferia ser chamado sempre que tratava de assuntos psicológicos — Nosso Freud foi o primeiro a revelar os perigos espantosos da vida familiar. O mundo estava cheio de pais — e, em conseqüência, cheio de aflição; cheio de mães — e, portanto, cheio de toda espécie de perversões, desde o sadismo até a castidade; cheio de irmãos e irmãs, de tios e tias — cheio de loucura e suicídio.
— Entretanto, entre os selvagens de Samoa, em certas ilhas ao largo da costa da
Nova Guiné. . . O sol tropical envolvia como um mel morno os corpos nus das crianças que brincavam promiscuamente entre flores de hibisco. O lar era qualquer uma das vinte casas cobertas de folhas de palmeira. Nas ilhas Trobriand, a concepção era obra de espíritos ancestrais; ninguém jamais ouvira falar em pai.
— Os extremos se tocam — disse o Administrador. — Pela excelente razão que
eles foram levados a se tocarem.
Mães e pais, irmãos e irmãs. Mas havia também maridos, esposas, amantes. Havia também a monogamia e o romantismo.
— Se bem que os senhores provavelmente não sabem o que venha a ser tudo isso — observou Mustafá Mond.
Eles sacudiram a cabeça.
A família, a monogamia, o romantismo. Em toda parte o sentimento de exclusividade, em toda parte a concentração do interesse, uma estreita canalização dos impulsos e da energia.
— Mas cada um pertence a todos — concluiu, citando o provérbio hipnopédico.
Os estudantes aprovaram com um sinal de cabeça manifestando vigorosamente sua concordância a uma afirmação que mais de sessenta e duas mil repetições lhes tinham feito aceitar, não apenas como verdadeira, mas como axiomática, evidente por si mesma, absolutamente indiscutível.
*retirado do livro "Admiravel Mundo Novo", de Aldous Huxley
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Acerca de livros e ignorantes

Por aqui se vê como é necessário a qualquer pessoa que aspire a um conhecimento verdadeiro examinar as definições dos primeiros autores, ou para corrigi-las, quando tiverem sido estabelecidas de maneira negligente, ou para apresentar as suas próprias. Pois os erros de definições se multiplicam à medida que o cálculo avança e conduzem os homens a absurdos, que finalmente descobrem, mas que não conseguem evitar sem calcular de novo, desde o princípio, no que reside a base de seus erros. De onde se segue que aqueles que acreditam nos livros procedem como aqueles que somam muitas pequenas somas numa maior, sem atentarem se essas pequenas somas foram ou não corretamente somadas; e finalmente encontrando o erro visível, e não duvidando das suas primeiras bases, não sabem que caminho seguir para se esclarecerem, mas gastam tempo azafamando-se em torno de seus livros, como aves que, entrando numa chaminé e vendo-se fechadas num quarto, adejam em torno da enganadora luz de uma janela, por não possuírem a sabedoria suficiente para atentarem por que caminho entraram. De tal modo que na correta definição de nomes reside o primeiro uso da linguagem, o qual consiste na aquisição de ciência; e na incorreta definição, ou na ausência de definições, reside o primeiro abuso, do qual resultam todas as doutrinas falsas e destituídas de sentido; o que torna aqueles homens que tiram sua instrução da autoridade dos livros, e não de sua própria meditação, tão inferiores à condição dos ignorantes, quanto são superiores a estes os homens revestidos de uma
verdadeira ciência. Pois entre a verdadeira ciência e as doutrinas errôneas situa-se a ignorância. A sensação e a imaginação naturais não estão sujeitas a absurdos. A natureza em si não pode errar; e à medida que os homens vão adquirindo uma abundância de linguagem, vão-se tornando mais sábios ou mais loucos do que
habitualmente. Nem é possível sem letras que algum homem se torne ou extraordinariamente sábio, ou (amenos que sua memória seja atacada por doença, ou deficiente constituição dos órgãos) extraordinariamente louco. Pois as palavras são os calculadores dos sábios, que só com elas calculam; mas constituem a moeda dos loucos que a avaliam pela autoridade de um Aristóteles, de um Cícero, ou de um Tomás, ou de qualquer outro doutor que nada mais é do que um homem.
*Extraido do Leviatã, de Hobbes
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
O deus Tempo em Lilipute

*A mando do imperador, os pequenos do reino de Lilipute revistam Gulliver, o Homem-Montanha, fazendo um minucioso inventário de cada coisa que vêem. Ao encontrarem o relógio de bolso, ficam intrigados com a poderosa definição conceitual acerca do tempo.
"Do bolso direito do cinto, pendia uma grande corrente de prata, com uma maravilhosa espécie de mecanismo na extremidade. Ordenamos que mostrasse o que quer que estivesse
na ponta daquela corrente. Parecia ser um globo, metade de prata e metade de algum metal transparente. Do lado transparente, vimos certas figuras estranhas, desenhadas em círculo. Ele pôs seu mecanismo junto aos nossos ouvidos. Fazia um ruído contínuo, algo como um“tique-taque” repetido. Supomos que é algum animal desconhecido ou o deus que ele adora. Estamos mais inclinados para a última opinião, já que ele nos assegurou que raramente faz alguma coisa sem consultá-lo."
*Extrato de "As Viagens de Gulliver", de Jonathan Swift.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
O mau presságio

No começo todo mundo pensou que fosse uma peste. As donas-de-casa se extenuavam de tanto varrer pássaros mortos, sobretudo na hora da sesta, e os homens os jogavam no rio às carradas. No Domingo da Ressurreição, o centenário Padre Antonio Isabel afirmou no púlpito que a morte dos pássaros obedecia à má influência do Viseu Errante, que ele mesmo tinha visto na noite anterior. Descreveu-o como um híbrido do de bode cruzado com fêmea herege, uma besta infernal cujo alento calcinava o ar e cuja visita determinaria a concepção de monstros pelas recém-casadas. Não foram muitos os que prestaram atenção à sua conversa apocalíptica, porque o povo estava convencido de que o pároco tresvariava por causa da idade. Mas uma mulher acordou todo mundo na madrugada de quarta-feira, porque encontrara uns rastos de bípede de casco fendido. Eram tão verdadeiros e inconfundíveis que os que foram vê-los não puseram em dúvida a existência de uma criatura horrível semelhante à descrita pelo pároco e se associaram para montar armadilhas nos quintais. Foi assim que levaram a efeito a captura.
Duas semanas depois da morte de Úrsula, Petra Cotes e Aureliano Segundo acordaram sobressaltados com um choro de bezerro descomunal que chegava da vizinhança. Quando se levantaram, já um grupo de homens estava soltando o monstro das afiadas varas que tinham posto no fundo de uma fossa coberta com folhas secas, e ele já deixara de berrar. Pesava como um boi, apesar da sua estatura não ser maior que a de um adolescente, e das suas feridas manava um sangue verde e viscoso. Tinha o corpo coberto por um pêlo áspero, cheio de carrapatos miúdos, e a pele petrificada por uma crosta de caracas, mas ao contrário da descrição do pároco, as suas partes humanas eram mais de anjo doente do que de homem, porque as mãos eram limpas e hábeis, os olhos grandes e crepusculares, e tinha nas omoplatas os cotocos cicatrizados e calosos de asas potentes, que deveriam ter sido desbastadas com machado de lavrador. Penduraram-no pelos tornozelos numa amendoeira da praça para que ninguém ficasse sem vê -lo e quando começou a apodrecer incineraram-no numa fogueira, porque não se pôde determinar se a sua natureza bastarda era de animal para jogar no rio ou de cristão para sepultar. Nunca se verificou se na realidade foi por causa dele que morreram os pássaros, mas as recém-casadas não conceberam os monstros anunciados, nem diminuiu a intensidade do calor.
*Extraido do livro "Cem anos de solidão", de Gabriel Garcia Marquez
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Kant, o idiota

Agora uma palavra contra Kant como moralista. A virtude deve ser nossa invenção; deve surgir de nossa necessidade pessoal e em nossa defesa. Em qualquer outro caso é fonte de perigo. Tudo que não pertence à vida representa uma ameaça a ela; uma virtude nascida simplesmente do respeito ao conceito de “virtude”, como Kant a desejava, é perniciosa. A “virtude”, o “dever”, o “bem em si”, a bondade fundamentada na impessoalidade ou na noção de validez universal – são todas quimeras, e nelas apenas encontra−se a expressão da decadência, o último colapso vital, o espírito chinês de Konigsberg. Exatamente o contrário é exigido pelas mais profundas leis da autopreservação e do crescimento: que cada homem crie sua própria virtude, seu próprio imperativo categórico.
Uma nação se reduz a ruínas quando confunde seu dever com o conceito universal de dever. Nada conduz a um desastre mais cabal e pungente que todo dever “impessoal”, todo sacrifício ao Moloch da abstração. – E imaginar que ninguém pensou no imperativo categórico de Kant como algo perigoso à vida!... Somente o instinto teológico tomou−o sob sua proteção! – Uma ação suscitada pelo instinto vital
prova estar correta pela quantidade de prazer que gera: e ainda assim esse niilista, com suas vísceras de dogmatismo cristão, considerava o prazer como uma objeção... O que destrói um homem mais rapidamente que trabalhar, pensar e sentir sem uma necessidade interna, sem um profundo desejo pessoal, sem prazer – como um mero autômato do dever? Essa é tanto uma receita para a décadence quanto para a idiotice... Kant tornou−se um idiota. – E ele era contemporâneo de Goethe! Este calamitoso fiandeiro de teias de aranha foi reputado o filósofo alemão par excellence – e continua a sê−lo!...
Abstenho−me de dizer o que penso dos alemães... Kant não viu na Revolução Francesa a
transformação do estado da forma inorgânica para a orgânica? Não perguntou a si mesmo se havia algum evento que não poderia ser explicado exceto através de uma disposição moral no homem, para que, fundamentada nisso, “a tendência da humanidade ao bem” pudesse ser explicada de uma vez por todas? Resposta de Kant: “Isso é a revolução”. O instinto que engana sobre toda e qualquer coisa, o instinto como revolta contra a natureza, a decadência alemã em forma de filosofia – isso é Kant!
*Extrato retirado de "O Anticristo", de Friedrich Nietzsche
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Espinhas

Concluí o trimestre, mas minhas espinhas tinham piorado ainda mais. Elas eram do tamanho de nozes e cobriam minha face.
Eu sentia muita vergonha. Algumas vezes, em casa, eu parava em frente ao espelho do banheiro e estourava uma das espinhas. Pus amarelo espirrava no espelho. E então saía um pequeno caroço branco. De um ponto de vista escatológico, era fascinante que toda aquela porcaria pudesse caber ali dentro. Mas eu sabia como era difícil para as pessoas terem que me olhar. (...)
(...) - Acne vulgaris. O pior caso que já vi em todos os meus anos de prática! - indicou um dos médicos.
- Fantástico!
- Incrível! -Olhem só o rosto!
- O pescoço!
- Acabei de examinar uma jovem com acne vulgaris. Suas costas estavam cobertas. Ela chorava. Sabem o que me disse: "Como vou conseguir arranjar um homem? Minhas costas ficarão marcadas para sempre. Quero me matar!". E agora veja só esse camarada! Se ela pudesse vê-lo, saberia que realmente não tem nada do que reclamar!
Seu puto imbecil, pensei, não percebe que posso ouvir o que você está dizendo? Como será que um homem chega a médico? Será que eles aceitam qualquer um?
- Ele está dormindo?
- Por quê?
- Parece bastante tranqüilo.
- Não, não acho que ele esteja dormindo. Você está dormindo, meu garoto?
- Sim. Estou dormindo seu babaca.
*extraido do livro Misto Quente, de Charles Bukowski
sexta-feira, 19 de junho de 2009
A mente criativa
"A mente verdadeiramente criativa em qualquer campo não é mais que isto: uma criatura humana nascida anormalmente, inumadamente sensível. Para ele... um toque é uma pancada, um som é um ruído, um infortúnio é uma tragédia, uma alegria é um êxtase, um amigo é um amante, um amante é um deus e o fracasso é a morte. Adicione-se a este organismo cruelmente delicado a subjugante necessidade de criar, criar, criar - de tal forma que sem a criação de música ou poesia ou literatura ou edifícios ou algo com significado, a sua respiração é-lhe cortada. Ele tem que criar, deve derramar criação. Por qualquer estranha e desconhecida urgência interior, não está realmente vivo a menos que esteja criando." (Pearl Buck)
Assinar:
Postagens (Atom)
