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sábado, 28 de julho de 2012

A Luz e o Medo feat Beatles for Sale



No Reply feat I Don't Wanna Spoil the Party

Foi naquela mesma noite que vi a luz ,
A luz que surgia por detrás dos prédios.
Eu vi a luz, faiscando, em chamas
E sim, foi assim que eu quase morri

Mas como foi?
Eu lhe digo,
Se eu fosse você
Eu perceberia
que o mundo não é mais
que amor e agonia

Sem respostas
Assim nós vivemos
Assim nós morremos
Sem respostas..........................



 ...................... Eu não quero ficar nessa porra de lugar. Não consigo nem ficar bêbado, não há nada para mim aqui, eles não sabem o que está acontecendo. Então saio pela noite, alienado, fico pensando nela. E só o que surge em minha mente é solidão, raiva e medo, muito medo. Ela sabia, e agora está morta. Os cigarros não são mais engraçados, não são mais que subterfúgios para alimentar a agonia, o horror que é saber tudo o que sei. Nunca pedi para saber disso tudo, porque isso tinha de cair sobre mim?

Pelo menos, aqui os Tronkis não estão me vigiando, ou pelo menos acho que não. Olhei para o céu, tentando me prontificar de que este era um local seguro, mas o que é um local seguro nestes loucos tempos? Por que eles sabem, ah sim, eles sabem de tudo, e agora querem me capturar. Pois mesmo que quase ninguém tenha descoberto a fraude, essa porra que vai estraçalhar toda a realidade, eu estou percebendo a complexidade de tudo, e isto está começando a ficar perigoso. E o pior disso tudo, meus caros amigos, é que eles sabem, eles sabem que eu sei de tudo, e agora eles sabem que você também sabe! HAHAHAHAHAH.............................



Mister Moonlight feat Kansas City

Why we Love you, Mister Moonlight?
We love you cause you bring us to dawn
We love you cause down below is just death
But on the top where you are, Mister Moonlight
There we can reach the stars
And now I’m going
to wherever I can rest
I’m going to  Kansas City,
I’m going to be knocked out
ba-ba ba-ba ba-ba

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Let me take you down, ou formigas



Prelúdio

Primeiro tu percebe as formigas, pequeninas, passando abaixo de ti. Trabalhadoras, organizadas, insignificantes. Frente aqueles frágeis seres, tu é um monstro de tamanho descomunal, um deus. E tu sabes  o quão complexa e poderosa é a estrutura do ser-humano, o poder do teu tamanho comparado ao das indefesas formigas. Então, friamente, tu pisa sobre as formigas, esmaga elas, por puro instinto assassino, crueldade, complexo de gigantismo.
Mas então a consciência pesa, e tu pensa que é o menor dos seres do universo, uma fraca estrutura corporal com vida efêmera e patética, que vai simplesmente viver, morrer e apodrecer como toda e qualquer coisa nesse pequeno planeta do sistema solar chamado Terra. Como as próprias formigas na qual tu acabou de pisar.


Drogas ou sentimentos

Tu dá um cala a boca na tua mente e acende o baseado. Pensa que é difícil de ser alguém, mas isso não importa muito, porque nada importa muito. É difícil sintonizar com tantas frequências confusas, as frequências de tantas pessoas, tantas ideias, tantos compromissos, informações, necessidades, obrigações, limites. Parece muita coisa para pouco propósito. E tu pensa que, no final, tudo não passa de um sonho, um sonho na qual estamos acordados, mas que entendemos muito pouco. Um sonho dominado por nossas emoções.
Qualquer busca por qualquer objetivo, o que quer que se trace na vida parece não ter nenhuma significância, serve apenas como combustível para suprir as emoções do ego.  Apenas palavras tentando expressar um conceito mental sempre mutante, que não pode ser definido somente em palavras. Amor, ódio, medo, felicidade, depressão, dor, prazer. São como drogas, sensações e estímulos captados por nosso cérebro, na qual ficamos viciados. E que estão entrelaçados, se fundem formando emoções cada vez mais complexas, mixadas.



You know I'd give you everything I've got for a little peace of mind

Mas isso tudo que se foda, porque a roda gira com o baseado. E tu é parte de um todo, sente fluir o prazer. E estão todos juntos a sua volta, todas as energias são positivas, todos cantando, sorrindo, viajando pelo gigante e louco navio. São um milhão de cores, dois mil seres de doze diferentes galáxias, cinco diferentes dimensões. E guitarras vibrando, derretendo-se em vibrações quentes. Isso tudo é demais, as pessoas e jupterianos girando, as lhamas e os visigodos de Delória dançando, e tu se sente consumido pelo torpor do momento. Simplesmente decide que é hora de voar, abre tuas grandes e brancas asas de arcanjo e ganha os céus. Você então vê o grande balão mágico - conduzido pelo simpático dromedário Nefastus, saudoso primo do dromedário Molina - deixar o rastro de arco-íris pelas nuvens, laranjas no pôr do sol. E tu pensa que o mundo é bonito, mas sabe que o balão logo vai explodir. E quando o balão explodir, as formigas estarão de volta, e serão monstros enormes, cruéis, assassinos que arrancarão, na primeira mordida, a sua maldita cabeça.



photos by RandySlavin

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

turnips and creation

Giovani was strolling through the streets of Riyadh, Saudi Arabia, singing joyous songs in Estonian and debuting his newly purchased pink walking shoes when, suddenly, a giant bipedal carnivorous nymphomaniac flower dashed wildly in his direction and,grabbed in one single blow, his legs. The strong teeth of the carnivorous bipedal giant nymphomaniac flower easily teared the legs off Giovanni, who was lying on the ground moaning in pain in a pool of blood and loose guts. But the pain of the poor lad did not be long as soon as his head was crushed by the foot of a green elephant, that was passing by the place leading the militia of post-radioactive mamals who would soon duel against the transgenic beings of neo-Nazist botany for the control of oilfields of the Middle East. However, as the biochemistry of contact between these beings involved in the battle was inexplicable, all the brave warriors of both sides were transported to a parallel, very compact dimension, and there turnips grew everywhere with extreme speed. Soon the uncontrollable turnips occupied all the space of the infamous dimension and the mammals post-radioactive, togheter with the transgenic beings of neo-Nazist botany, were fused to the absolute turnip which exploded and gave birth to the universe.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

falta de inspiração


Faz tempo que não escrevo nada. Algo como garrafas numa salada de gengibre, se é que vocês me entendem. Mas não, vocês não entendem, ou se entendem estão a minha frente, porque eu não entendo. Não quis dizer nada, felizmente, mas meu guia telefônico diz que o nada quer dizer muita coisa. Será? Quem se importa também, no final tudo é geleia mesmo. Geleia cósmica, como tantos outros enterros eslavos. São simplesmente palavras soltas, formando frases sonoramente impactantes. Já ouvi falar que os orgasmos dos caramujos são parecidos com isso tudo, mas me falta conhecimento empírico no assunto para saber se eu sei vagamente sobre o que estou falando. Dizem que as redundâncias fazem parte da viagem, se repetem. No vocabulário estão entre as letras P e Q, num abismo gramatical até hoje incompreensível. Pleonasmos gritantes numa floresta negra, muitas sombras não são o que parecem. Não sei se isso é o que se chama de falta de inspiração, ou talvez sejam apenas gases. Pode até ser fruto da estabilidade. Escrever requer certo grau de caos. DERRAMEM SUA URINA NAS PORTAS DO LIMBO. Aliás, só para constar, o limbo não existe mais, nosso papa decidiu que agora todas as criancinhas mortas vão para o céu mesmo. Então, onde despejaremos nossa urina? São questões importantes como estas que deveriam ser tratadas por nossos políticos, mas eles preferem desviar verbas públicas. O caos é a origem de tudo sempre. A ordem é muito tediosa, frígida demais para ser exposta no papel. Não dá para comer a ordem, falta lubrificação. O que não falta é esperança, pois sempre há os loucos que sonham. Sonhar é legal, berinjela não é tanto. A vida é muito sem graça as vezes. As vezes não, mas como alguns dizem que plutônio desobstrui os poros da pele, é melhor não arriscar. Aliás, nada impede que eu escreva o quanto considero toscas as novas práticas para cultivo de frutas cítricas na região do sudeste catarinense. Muito antiquadas para meus padrões, é hora dessa rapaziada entrar na era da retangularização tribal! Pronto, agora me sinto mais aliviado. No caso é uma questão de prioridade, creio eu. O ser humano fala demais, não entende o valor do silêncio. Caso alguém queira comprar o silêncio, custa 8 reais, e está a venda no olho do cú. Nem sempre é um lugar bonito para se visitar. Por isso prefiro me abster sobre certos assuntos, principalmente em relação a sintaxe e a existência. Quando visitei Delória 15, na constelação de Artrite, falei com um pote de margarina sobre isso. A discussão não rendeu muito. Obviamente, pois margarina não fala, só sabem cantar. Por isso a música as vezes quer dizer muito mais do que parece. Uma vez ouvi um ditado lindo sobre música, que até hoje muito me faz refletir: música é música para os ouvidos. Genial, não? Enfim, bem melhor seria se eu tivesse falado com um dromedário, ou até um grampeador. Muitos questionam a eloquência dos grampeadores. Eu não, sempre escuto com atenção quando um começa a falar. Geralmente eles dizem coisas muito interessantes, mas isso não vem ao caso. O que realmente importa, e que não deve ser jamais esquecido é

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Análise metasurrealista do fime Eraserhead, de David Lynch


"Quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti" - Friedrich Nietzsche

Eu tento dormir, mas não posso, minha cabeça quer explodir. Ela precisa explodir, sabe que é o melhor que tem a fazer. Além disso os pesadelos são horríveis, os vermes tem dentes enormes. É melhor ficar acordado mesmo, apesar da total exaustão causada por 80 horas ininterruptas sem sono. O mundo parece ter desaparecido completamente a minha volta. Não tenho mais emprego, amigos, família ou qualquer coisa. A televisão não tem mais sinal, as portas do apartamento estão todas trancadas. Agora, só existimos eu e o MONSTRO, não há tempo, e o espaço é restrito ao que nossos olhos vêem. As vezes até mais curto que isto.

Tento comer umas bolachas, mas de que adianta? A comida não tem qualquer sabor, porém também não sinto mais fome. As frutas estão ficando todas podres e enchem-se de larvas nojentas e gordas. As plantas morreram, o cachorro morreu de fome, todas as coisas estão morrendo. Não há mais salvação, tudo está perdido. Só o que cresce são estes vermes malditos e o MONSTRO, que fica cada vez maior e grita cada vez mais alto. Seu choro não é um choro humano, mas o guincho dum tipo de sapo agonizante, martelando insistentemente no meu cérebro debilitado.

Vou ao banheiro e minha urina vem acompanhada de uma dor lancinante, pois pela uretra dilatada saem esguichos de sangue com pequenas larvas, abortos involuntários de um corpo cada vez mais degenerado em si. Os vermes, ainda perdidos no pandemônio do momento, lentamente vão subindo as paredes da privada, saindo em busca de comida para enxertar suas feias carcaças. Tento me olhar no espelho, contudo percebo que não tenho mais reflexo. No lugar da minha cabeça, só consigo enxergar a cabeça do MONSTRO.

Me vou lentamente até o quarto onde chora o MONSTRO. Abro a porta. É o único lugar quente do apartamento, todos os outros cômodos estão muito gelados. Deitado sobre a cama, uma pulsante geleia visceral amorfa, e a cabeça deformada com uma boca em forma de ferida aberta. Por todos os lados uma infinidade de vermes. Não mato mais estes vermes, pois dos restos de um acabam brotando outros três ou quatro. São uma praga incontrolável, começaram vindo em minhas fezes, agora estão em toda a parte.

Não sei ao certo quando isso tudo teve início. Pode ter sido há uma semana, um ano ou uma eternidade. Perdi a noção do tempo a nem sei quanto tempo. Só lembro que um dia o MONSTRO foi deixado em minha porta, numa cesta sem bilhete. Por mais bizarro que parecesse, não fui capaz de deixar aquele ser morrer a míngua. Na verdade me sentia muito próximo daquela coisa, como se ela fosse parte de mim. E estava lá, pequeno, indefeso, então eu dei comida para ele. Minha mulher não gostou da idéia, mas também sentia pena, não se opôs completamente.

De início não chorava tanto, apenas quando queria comida. O alimentava-mos umas três vezes ao dia, ele se saciava e parecia dormir. Ficava numa pequena caixa forrada no quarto de hóspedes. Quando saia para trabalhar, minha mulher tomava conta dele. Então, começaram os pesadelos, os vermes que comiam primeiro a minha carcaça, depois o cérebro. E o MONSTRO ficou doente, chorava cada vez mais e mais, e por isso precisava de cada vez mais e mais atenção. Minha mulher perdeu a paciência, pediu para que me livrasse dele. Mas eu não podia fazer isso, não podia deixar o MONSTRO morrer, ele estava ali completamente frágil, era minha obrigação protegê-lo. Comecei a ficar relapso no trabalho, deixei qualquer tipo de vida social de lado, parei de assistir televisão. Só queria que o MONSTRO se recuperasse logo, vivia para cuidar dele. Mal percebi quando minha mulher me abandonou. Meu emprego simplesmente esqueci, o telefone ficou mudo por falta de pagamento, o cão implorava em vão por comida. A campainha tocou algumas vezes, mas fingi que não estava, não queria ver ninguém. Enquanto isso, o monstro se recuperara da doença, mas agora estava maior, e chorava mais. Nisso já haviam muitas larvas espalhadas pela casa também, mas em minha ignorância eu as matava para que não machucassem o MONSTRO.

Os pesadelos eram cada vez mais freqüentes, envoltos numa confusão de signos sagrados, demônios e vermes. A morte rondava meu inconsciente, figurava incômoda, contudo paradoxalmente piedosa. Mas em geral não conseguia dormir mais que umas poucas horas, pois o MONSTRO guinchava alto, precisava de atenção para se calar. Sentia meu corpo todo deveras debilitado, enxaquecas horríveis pareciam alertar o absurdo daquela situação. Comia muito pouco, mas o MONSTRO devorava tudo a sua volta. Não entendia de onde saiam tantos vermes, comecei a ficar impaciente. Tinha que sair de casa, comprar alimentos, pegar um ar fresco. Mas a porta estava incrivelmente pesada, e eu me sentia tão exausto que decidi ficar mesmo no apartamento.

Em pouco tempo o esmero irracional que eu tinha para com o MONSTRO foi minguando até tornar-se em uma raiva exposta. Seu choro estava me enlouquecendo, não sabia o que fazer para cala-lo. Num lapso de consciência tardio, percebi que havia arruinado minha própria vida por causa daquela coisa. Ainda que me sentisse ligado a ele, como se fosse uma parte repulsiva da minha essência instintiva, agora sabia que o melhor a fazer era acabar com tudo de vez. Fui até a cozinha e o cão estava lá, morto, putrefato, repleto de larvas. Não dei muita atenção, o cheiro não incomodava. Peguei a faca mais afiada e me dirigi ao quarto anexo.

O MONSTRO estava lá, berrando como sempre, mas se calou quando cheguei. Com seus olhos de bagre, cinzentos e vazios, observava com curiosidade o artefato. Parecia tranqüilo, até alegre em minha presença. Acabei hesitando um momento frente a fragilidade daquela criatura, afinal não era do meu feitio uma atitude tão brutal. Mas não, não estava certo, aquela loucura tinha que terminar! Abri lentamente o manto que recobria o minúsculo corpanzil do MONSTRO. Percebi que ali haviam órgãos dispersos num emaranhado de ossos mal formados, mas era latente a falta de um tecido capaz de revestir o núcleo. Haviam vermes dentro dele, rastejando de lá para cá. O MONSTRO começou a chorar novamente. Logo encontrei aquele que seria o seu coração, pulsando rapidamente frente a proximidade da faca. Num golpe rápido e intuitivo, o choro cessou.

Tudo havia acabado, o monstro estava morto. Sem remorsos, cobri o pequeno cadáver com uma toalha e afundei na cama...

“... está tudo bem. os vermes caem do teto, surgem por todos os lados. Vou esmagando um por um com fúria e crueldade. Está tudo bem. Com um lança chamas vou instantaneamente carbonizando dezenas. Golpes violentos com um gigantesco martelo dourado destroçam mais alguns, abrindo fendas no chão por onde outros caem. O chão se fecha, não possibilita que eles voltem. Está tudo bem. As carcaças das nojentas criaturas se espalham num mar de fluidos verde, jazem estáticas no chão e nada brota da gosma. Está tudo bem...
... Não caem mais vermes do teto, que em ondas vai mudando de coloração. Estranha hipnose. Um piar de pássaros ecoa longe. Está tudo bem. O teto parece estar se aproximando numa dança em lilás e verde. O piar se torna o assobio de uma chaleira ao ficar mais audível. Está tudo bem. As paredes começam támbém caminham em minha direção. A gosma verde borbulha. O teto fica negro em sua totalidade e já não posso me manter de pé. Está tudo bem. Tenho que me agachar, o espaço vai se tornando cada vez mais restrito, e tudo está escuro fora o chão verde que vai se moldando numa estranha forma. O assobio agora assume tons agudos insuportáveis para meu cérebro. Paredes e teto me comprimem deitado no chão em fusão com a putrefata massa verde que virou o MONSTRO. Começo a vomitar e só termino quando me sufoco em meus próprio dejetos, com um olhar vidrado dentro da mente do MONSTRO, ouvindo os berros de um lamento eterno...”

O choro do MONSTRO. Ele estava lá, retornado do inferno, no mesmo lugar e ainda maior. Acordei num pesadelo. Tentei matá-lo diversas outras vezes de diversas outras formas, mas ele sempre retornava, cada vez maior, uma massa disforme e a cabeça abortada. Repleto de vermes. Alimentava-se dos vermes, alimentava-se de si mesmo. Então desisti, percebi que não haveria fim. Pois eu criei o MONSTRO, eu o tornei forte, invencível, não tenho mais como impedir que se sobressaia. Dei-lhe minha força, meus sonhos, minhas alegrias, minha vida. O MONSTRO sou eu, e de mim sobrou apenas medo e preguiça.

O tempo esta morrendo, as cores estão morrendo, não existe mais nada para se ver. O espaço está cada vez mais fechado em si, rodopiando confuso nas curvas do tempo. As janelas dão para uma parede de tijolos cinzas, espalhando-se monotonamente, eternamente, por todos os lados do horizonte aprisionam minha vista. As portas estão trancadas, e mesmo que estivessem abertas não tenho força para sair. Tudo é frio, mas logo irá acabar. Me deito ao lado do MONSTRO que sossega na minha presença, e observo os vermes passeando pelas paredes apodrecidas que começam a se desfazer. Eles também passeiam sobre mim, saem da minha boca, entram em meus ouvidos, choram por meus olhos. Minha cabeça se desprende do corpo, flutua fora de órbita tranqüila, pois vai explodir. Está tudo bem.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O ser fútil


O ser fútil é deveras interessante para aqueles raros que estão acima nas hierarquias sociais, e são responsáveis pelo controle estrutural quase absoluto da religião, economia, política, etc. Possuindo pouca capacidade de abstração, o ser fútil não busca alterar a ordem vigente das coisas, torna-se um burocrata que simplesmente participa da trama, um fantoche maleável e acrítico nas mãos daqueles poucos que verdadeiramente tomam as decisões. O estímulo a uma interpretação abstrata das coisas do mundo é repudiada em detrimento duma robotização e massificação intelectual do ser humano, facilitando assim sua manipulação.

Apesar de não saber, o ser fútil tornou-se escravo de certos conceitos do qual, no decorrer da história, ele próprio foi o grande difusor. Por serem muitos, e em sua essência extremamente parecidos, os seres fúteis passaram a correr atrás de artifícios capazes de camuflar tamanha homogeneidade leviana inerente a sua natureza, e com esse intuito estimularam uma mercantilização desmedida de todas as coisas. O ser fútil sente a necessidade de se diferenciar perante seus pares igualitariamente acéfalos, portanto almeja luxuosos carros, roupas de grife, narizes perfeitos e majestosos televisores de plasma. O materialismo e narcisismo são a essência máxima do ser fútil, que idolatra o shopping e o poder do dinheiro, e esquece completamente de sua subjetividade.

O ser fútil, raras vezes, pensa estar apegado a algum conceito de Deus, um ser metafísico de natureza incompreensível. E se assim pensar, dificilmente irá questionar as razões da sobrenatural onipotência desta presença onírica, simplesmente porque o ser fútil não busca entender de complexas questões existenciais, sua mente ignóbil está blindada contra tais reflexões, influída por exemplo pela ditadura televisiva, indústria cultural e banalização das idéias. O que na realidade ocorre, é que o grande Deus do ser fútil é ele mesmo, o ser fútil, já demasiadamente, e por diversas frentes, estimulado numa ordem baseada pela adoração do ser como estrutura atomizada e independente do resto da sociedade, a insuflar seu ego ao ápice.

Enquanto sua existência vai caindo ao abismo niilista da sociedade pós-moderna, no qual os dogmas religiosos e sociais já foram em sua maioria desmistificados por uma exagerada e anti-social ideologia positivista, o ser fútil é maquinado a ter seu próprio cérebro trancafiado numa confusa rede de incoerentes sinapses. Aos poucos vai distorcendo sua percepção das coisas, e mingua a capacidade de questionar o mundo e a maneira que ele próprio interage em tal contexto. O ser fútil perdeu a paixão, não se assombra mais com a imensidão do céu, nem se maravilha com as cores do crepúsculo. O ser fútil provavelmente não irá ler esse texto, mas se por algum descuido ou resquício de sensibilidade o fizer, certamente não entenderá porra nenhuma.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O velho e a máquina


Pego uma carona na Brasília do meu avô. No caminho ao trabalho, encarcerado a um caótico trânsito típico dos dias de chuva da capital gaúcha, converso um pouco com o velho. Se é que a comunicação exercida pode ser chamada de conversa pois, apesar de ser um homem com formação, culto e inteligente, a eloquência do velho Renê se baseia em resmungos e poucas palavras decifráveis. É como se ele tivesse constituído seu próprio dialeto, remotamente compreensível mesmo para aquelas pessoas mais próximas.

- E ai vô, tudo tranqüilo na firma?
- Ah, Mais ou menos.
- Qual o problema hein?
- Tão querendo que eu use um computador. Não gosto desse bicho. É coisa pra louco.
- Mas e a máquina de escrever?
- Estragou de novo. Vou ter que fazer curso de informática agora. Coisa de maluco.
- Mas computador é um item indispensável hoje em dia. Vai facilitar um monte o teu trabalho com os contratos. Tu não vai precisar refazer tudo por causa de um erro qualquer, como na máquina de escrever.
- Guri, com uma máquina de escrever não erro nunca. Faz mais de 30 anos que faço estes mesmos contratos. Mas se dizem que tenho que usar computador, paciência. Não vou retrucar.

Fiquei pensando no dilema do meu avô. Um advogado que trabalha redigindo contratos para uma firma de exportações. Há 40 anos trabalhando com uma burocracia chata e monótona. Tentaram aposentá-lo, mas não conseguiram. Continuou fazendo a mesma coisa que fazia, de forma cada vez mais rápida e maquinal. Então queriam aposentar a sua secular companheira, a máquina de escrever. Meu avô provavelmente era um dos últimos seres a utilizarem do antiquado artefato, e realmente o utilizava com uma habilidade notável. Mas agora iria ter que livrar-se da sua velha amiga em detrimento de um aparelho muito mais moderno e avançado, com o qual não tinha nenhuma familiaridade. Um choque de gerações extremo. Uma criança de cinco anos do século 21 aprende a manusear aplicativos e softwares complexos do computador antes mesmo de saber escrever a palavra computador. Aliás, provavelmente ela irá aprender a escrever num teclado, e não com um ultrapassado lápis. É uma tarefa simples, pois esta criança já está incluída num contexto norteado pela tecnologia. Mas para Alcides é diferente pois, aos 82 anos, ele expressa nos olhos que já aprendeu da vida tudo o que tinha para aprender. Pertence a uma época diferente, baseada em outros valores, e não está acostumado a todo turbilhão de mudanças e novidades a sua volta. Um computador provavelmente não era uma figura muito bem quista em sua mente, mas se o chefe manda, deve-se abaixar a cabeça e cumprir.

Alcindo Renê (1927 - 2009) In Memoriam

terça-feira, 23 de junho de 2009

Sonhos dantescos



De repente, a música de uma flauta doce me desperta, com sua melodia suave e reconfortante. Saio do meu quarto nauseante como se estivesse de ressaca, a música parece me chamar mas não sei qual o caminho a seguir, pois ela emana em todos os lados da casa. Começo lentamente a descer as escadas, e o ranger do assoalho é tão alto que quase ofusca o som da flauta, e aperta ainda mais os miolos da minha já enfraquecida cabeça. Observo o quadro localizado logo ao lado, na parede. A pintura do barquinho com um pescador solitário na pequena vila de água cristalina obviamente está se movendo. Eu não estou ficando louco! O vento quente, posso sentir a brisa, cria minúsculas ondas no mar tranqüilo e faz as árvores dos morros circundantes balançarem morosamente. Por um instante fico relaxado e feliz, mas no momento em que piso em mais um degrau da escadaria, um silvo agudo penetra em minha mente e causa uma dor dilacerante. Sinto que existem milhões de vermes arrancando pedaços do meu cérebro. Tento gritar, mas apesar de sentir que a musculatura da boca faz o seu trabalho, não há nenhum som. Perco a força nas pernas e desabo escada abaixo, batendo a cabeça no chão com força.

Quando acordo, o irritante silvo agudo foi embora, bem como minha ânsia de vômito. Já a melodia da flauta doce persiste, e continua me chamando. Ao que parece o som vem de fora da casa. Abro a porta de entrada e me deparo com a majestosa floresta, fazendo com que o som da flauta se misture com o canto de uma centena de pássaros e o barulho do mar, que não parece muito distante. Grandiosos jequetibás e figueiras se apresentam em sintonia com arvores esguias e retorcidas, cobertas por uma variedade de bromélias e orquídeas. A vegetação é tão densa que apenas é possível ver algumas nesgas do sol. Sigo ao norte e a música vai aumentando cada vez mais. Viro a direita numa enorme pedra coberta de limo onde um velho babuíno se encontra sentando. Ele parece estar me esperando e faz um sinal para que eu o siga. Faço o que o macaco manda, e durante a caminhada a vegetação vai se rareando, enquanto a melodia cresce. Quando me dou conta, a floresta já ficou para traz, e foi substituída pela areia fina de uma tranqüila praia, um pequeno balneário em meio a mata fechada, onde havia apenas um minúsculo casebre de madeira. O macaco indica que devo entrar no local. Obviamente a música vem lá de dentro.

Entro no casebre. A melodia está mais forte do que nunca, mas não há ninguém no local. Não há qualquer tipo de mobília, apenas uma berrante privada rosa pink encravada no chão, destoando completamente do ambiente. Mas é exatamente de lá que a música vem, então me aproximo. Uma placa pendurada na descarga indica: “Perigo! Não de a descarga”. Levanto a tampa, e o que havia dentro da privada obviamente não era uma flauta doce, e sim um enorme e podre cagalhão assobiando a melodia. O fedor que sai dele é tão intenso que sinto que toda a natureza em volta foi dizimada em detrimento de um enorme lixão. A ânsia de vômito e a sensação de ressaca voltam, o que faz com que eu ignore o aviso e dê a descarga. O cagalhão foi-se embora, levando consigo toda a música. Um silêncio profundo reinava agora.

A porta do casebre de repente se abre e um grande clarão branco surge, ofuscando minha vista. Sigo até a saída hipnotizado pela sua luz. A pequena casa de madeira se desfaz, assim como todo o cenário anterior. Agora estou em meio a uma selva de pedras, no centro movimentado de uma enorme metrópole onde não há mais o barulho de flauta doce ou pássaros cantando, mas sim o farfalhar desordenado de buzinas, gritos e máquinas trabalhando. Pelo jeito o cagalhão possuía alguma força sobrenatural que sustentava um equilíbrio entre a cidade e o ambiente paradisíaco anterior. Mas isso é passado. Um calor infernal se espalha pelo ar, me sinto sufocado com o ar tóxico. Quando procuro o céu, vejo apenas densas nuvens de fumaça lhe cobrindo, e uma chuva verde que cai corroendo carros, deformando as inúmeras construções e deixando as pessoas em alvoroço. Um gigantesco urubu aparece ameaça me engolir por inteiro. O silvo agudo retorna da boca do urubu, com maior intensidade em minha mente. Tento gritar mas novamente não sai som algum. Desespero.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

dialogo existencialista


Auã esmurruga a erva e fecha o baseado com habilidade. Em poucos minutos estamos fumando e divagando sobre a vida, entorpecidos pelo selvagem odor da cannabis em nossas mentes. Um programa sobre adestramento de cachorros passa na televisão.
- Que porra meu. Como a vida seria muito mais fácil se nós fossemos simples cachorros, irracionais e abobados, não é?- sugeri
- Pois é... Seria mais fácil mesmo, mas é exatamente esta simplicidade que separa o restante dos animais do homem.
- Ok, mas e o que ganhamos com essa separação?
- Se não tivéssemos, por ocasião do destino, descido das árvores e começado a comer carne, nosso cérebro não evoluiria e seriamos macacos vivendo apenas dos instintos. Daí não teríamos capacidade de raciocínio para estar tendo esta conversa subjetivamente articulada agora.
- Tudo bem, mas qual a grande vantagem desta fudida capacidade de raciocínio? O que de tão bom ganhamos com uma comunicação sofisticada e tecnologia de ponta, celulares, hambúrguer, filosofia ou kama-sutra?
- Muita coisa. O raciocínio possibilitou nosso crescimento intelectual e nossa prosperidade no mundo diante dos outros animais.
- Só que se ainda fossemos macacos não iríamos pensar para querer essa superioridade, teríamos a ignorância para nos proteger. Passaríamos a vida inteira rindo, fudendo e pulando de galho em galho.
- Se fossemos macacos, ainda estaríamos lutando por nossa sobrevivência contra leões e onças, as doenças encurtariam muito nossas vidas sem a medicina. Hoje temos a segurança e a liberdade para decidir um rumo para nossas vidas e estabelecer nosso lazer como bem entendermos, com sexo, futebol, sinuca e drogas para sanar nossas necessidades. Nossos meios de diversão tornaram-se mais sofisticados também.
- Mas toda essa evolução e arrojo intelectual só fez surgirem angústias e dilemas cada vez mais profundos! A medida que nossas cabeças evoluem, questionamos nossa própria existência, e chegamos a um enorme labirinto sem respostas. Um cachorro não tem estas preocupações, não fica se indagando sobre o que o futuro lhe reserva, para onde irá após a morte ou sobre como conseguir dinheiro para comprar uma caralhada de coisas. Estes questionamentos não ocorrem na cabeça de um cachorro, que simplesmente vive a porra do seu presente, plenamente satisfeito com o que tem. Ele não precisa de mansões luxuosas em Miami, viagens para as Ilhas Gregas ou até mesmo um baseado para ser feliz. Uma maldita bolinha de tênis quicando em sua direção já basta para isto.
- Vendo por este lado é verdade. A razão implica na consciência dos nossos atos, e isso nem sempre é bom. Mas nos não vivemos apenas do instinto, a evolução nos fez como somos e não há com quem reclamar se está certo ou errado. Se Deus fudeu tudo, é tarde para contestar. O que temos que fazer é tentar pensar menos e agir mais, ocupar a cabeça com o presente e deixar o futuro para os adivinhos – finalizou Auã, e já estou muito cansado para outra réplica.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Começando...


Acho que a mente humana é demasiado caótica, como um emaranhado de idéias desconexas prestes a entrar em colapso. Alguns pensamentos são produtivos e até brilhantes, com potencial para realmente influenciar o ser humano a alguma forma de evolução. O curioso é que nestas mentes sempre existe um alter-ego louco, preguiçoso e extremamente confuso, um substrato cujo objetivo principal é estimular ao máximo o pensamento e, concomitantemente, dissipar o mais breve possível o potencial difusor das atividades neurais.

Por exemplo, quando algumas mentes peculiares reunem-se em volta de uma mesa de bar, e começam a formular alguma inovadora teoria acerca da existência, um dos participantes sem perceber revela aos demais o sentido da vida. Porém, apesar do caráter revolucionário deste momento, tudo passará de forma desapercebida pelos presentes, primeiro porque estes não tem a força de vontade necessária para organizar os seus pensamentos em algum meio de comunicação difusor e, principalmente, porque todos já estão muito bebadôs.